setembro 13, 2002

DOM CÂNDIDO
Degustamos um Dom Cândido Reserva Cabernet Sauvignon 99. Sua origem está ligada à própria história da família Valduga , originária de Rovereto, no Tirol italiano, que chegou ao Brasil em 1875, estabelecendo-se em Bento Gonçalves e, desde logo, dedicando-se à vitivinicultura. Anos mais tarde, um dos netos, Candido Valduga, aprimorou seus próprios vinhedos e partiu para a produção de vinhos finos, em pequena escala, mas de boa qualidade.
Com 12% de graduação alcoólica, é produzido e engarrafado pela Adega de Vinhos Finos Dom Cândido Ltda., em Garibaldi. Numa análise visual, apresenta uma cor rubi, brilhante e com reflexos violáceos, e uma boa aderência. Seu aroma de madeira é bastante agradável, denotando o amadurecimento e o envelhecimento em barris de carvalho europeu. Um vinho encorpado, com gosto pronunciado, em que se sente bem o efeito da madeira.
Detentor de vários prêmios no Brasil e no exterior, como a Medalha de Prata no “China Wine and Spirits 2002”.
Sentimos os taninos ainda elevados, mas devem reduzir-se com mais alguns anos de envelhecimento em garrafa. No geral, é um vinho bastante agradável, que pode ser degustado com satisfação.

setembro 09, 2002

VINHO E FEIJOADA? HUMMM...
Parece coisa fora de qualquer propósito, mas a verdade é que não se deve achar impossível um vinho acompanhando uma tradicional feijoada brasileira, no lugar do habitual chopp ou da caipirinha (que, por sinal, caem muito bem). Pelo menos, isso é o que afirmam alguns entendidos.
Onde está o segredo? Numa boa harmonização, dizem eles. Experimente um vinho frisante. Porque? Ele neutraliza o sabor forte do prato; e se torna ainda mais indicado quando se inclui a laranjinha, com sua acidez característica.
E se, em vez de feijoada, for um churrasco? Sem problemas, voltam eles a dizer. Escolha um vinho tinto com bastante corpo e com os taninos bem acentuados, a exemplo de um cabernet jovem; ele ajuda a neutralizar o gosto da gordura.
Não estamos aqui fazendo a apologia dessas indicações, mas as julgamos curiosas e algum gourmet poderá tentar experimentar. Se alguém tentou e aprovou, mande suas impressões.

setembro 08, 2002

PORCA DE MURÇA, ORA, POIS, POIS...
Os vinhos portugueses são assim mesmo, têm cada nome estranho... Nem sempre é fácil entender o significado deles, como também das variedades de uvas cultivadas. E este, então, nos intrigou tanto que decidimos pesquisar sua origem, antes mesmo de degusta-lo. Aí vai um pouco do que descobrimos.
Murça é uma povoação situada a centro-leste do Distrito de Vila Real e da Região de Trás-os-Montes e Alto Douro, cuja sede é a Vila de Murça. Segundo a lenda, no século VIII, o povoado de Murça era assolado por um grande número de javalis e ursos. O terror da região era uma enorme e feroz porca, ou ursa. Diante de tal ameaça, foram organizadas caçadas a cavalo, tendo o Senhor de Murça, um ilustre cavaleiro da região, abatido o tão indesejado animal. Para imortalizar essa façanha, foi construído, em pleno centro da vila, um monumento monolítico, a famosa "Porca de Murça". Esse mumento passou a ser presença obrigatória na publicidade da região, nomeadamente no vinho, no azeite e em outros produtos típicos.
E o Porca de Murça é uma tradicional marca de vinhos, produzidos pela Real Companhia Velha, em Vila Nova de Gaia, no Alto Douro. Essa é uma das mais conhecidas vinícolas de Portugal, prestes a completar 246 anos de fundação, que por mais de um século se dedicou à produção exclusiva de vinho do Porto.
Os vinhos Porca de Murça são detentores de vários prêmios: o tinto Reserva 97 recebeu medalha de ouro no Challenge International du Vin 99; o branco Reserva 98 foi classificado como "Melhor Vinho do Douro 99" e "Melhor Vinho Nacional 99". São feitos a respeitar.
O vinho que degustamos não era um Reserva, mas um tinto de mesa seco fino, D.O.C., safra 2000, com 11,5% de graduação alcoólica e produzido com uvas das castas Touriga Franca, Tinta Roriz e Tinta Barroca. Da análise visual anotamos sua cor rubi intensa, brilhante e com reflexos violáceos. Ao degustar, não se mostrou muito encorpado, mas sentimos seus agradáveis aromas frutados. Poderíamos afirmar, então, tratar-se de um honesto vinho de mesa, daqueles que podem ser bebidos com boa aceitação. E que agora sabemos possuir um passado curioso.

setembro 07, 2002

DEGUSTAR É ESCREVER POESIA
O objetivo deste blog é disseminar informações sobre degustação. De forma variada, sem uma linha pré-estabelecida de edição. E essas informações existem em abundância na Internet, a tal ponto que seria preciso dispor de muito tempo e paciência para vasculhar todo esse manancial.
Vez por outra nos deparamos com artigos escritos de forma bem objetiva, que abordam o essencial de maneira singela, mas que tocam nossa compreensão. E assim foi quando lemos o que escreveu Marcelo Copello na Gazeta Mercantil de 18/01/02, sob o título acima; dele extraímos alguns trechos, que abaixo reproduzimos:
>>>"Beber é simples: basta transferir o líquido da taça para a boca e dali direto ao estômago. Na degustação, este caminho passa pelo cérebro e pelo coração. Exige concentração, técnica, experiência, imaginação, memória e, sobretudo, paixão."
>>>"Degustar é sentir o vinho e interpretá-lo. Para isso é preciso educar as emoções, aprendendo a traduzi-las e descrevê-las...E o que é colocar emoções em palavras? Poesia. Degustar é escrever poesia."
>>>"Degustar é apresentar visão, olfato, tato e paladar, mais ou menos nesta ordem...A verdadeira técnica de degustação consiste em proceder toda esta análise de maneira natural e contínua, de modo a não comprometer o principal, o prazer."
Os interessados encontrarão aqui a íntegra do artigo.
São afirmações claras sobre qual deve ser a nossa conduta diante de uma taça com vinho. E mesmo aqueles que não tenham a pretensão de se tornarem experts no assunto sempre poderão pensar um pouquinho na sua validade.
PRIMEIRO ANIVERSÁRIO!!!
Chegamos, afinal, ao nosso primeiro ano! Muita coisa se passou desde aquele começo, quando resolvemos colocar em prática uma idéia que já nos rondava a cabeça mesmo antes de surgirem os blogs. No início, ficamos com certo receio de que não lográssemos uma boa aceitação e viéssemos a receber algumas mensagens de desagrado ou questionamento ("Quem é esse cara metido a falar sobre vinhos?"), pois nosso endereço de e-mail esteve sempre disponível. Felizmente, nada disso aconteceu e, hoje, temos a satisfação de, comparando as estatísticas do blog, constatar que vem aumentando o número de "page views". Isso é muito bom e animador, tem sido um incentivo para que continuemos a escrever. Não poderíamos deixar de comentar que muito nos agradaria receber as críticas e sugestões dos visitantes, porque nos propomos a fazer algo mais aberto, mais abrangente. Você, que nos lê neste momento, faça seus comentários, usando o link correspondente ao pé desta mensagem; ou, se preferir, envie-nos um e-mail. Será um prazer analisar tudo que recebermos.

setembro 01, 2002

VIVA VINHO
Entre os dias 3 e 5 deste mês realizar-se-á no Hotel Intercontinental, no Rio de Janeiro, mais uma edição do VIVAVINHO, evento que busca apresentar novidades em termos de produtos e realiza palestras sobre temas de relevância. A se repetir o esquema de 2001, também realizado no mesmo local, deverá haver sessões orientadas para degustação, com harmonização entre vinhos e pratos, numa seqüência pré-determinada.
Embora não saibamos qual será o conteúdo da programação, nem quais serão os expositores presentes, este é um evento interessante, que poderá acrescentar informações e conhecimentos aos que dele participarem.

agosto 29, 2002

MONTEPULCIANO D´ABRUZZO
Este é um vinho de mesa tinto fino, seco, D.O.C., safra 2001, graduação alcoólica de 12% vol. Produzido pela Cantine Soldo, de Chiari, na Província de Brescia, Itália, com uvas Montepulciano. Apresenta uma coloração rubi escura, aroma agradável de madeira, não muito encorpado e com taninos acentuados. Bebemos e gostamos. É preciso levar em conta que se trata de um vinho de mesa, mas que carrega consigo uma denominação de origem responsável por uma variedade de vinhos de boa aceitação não apenas em seu país de origem mas fora dele, também. Nestes tempos em que o vinho nacional vem, também, subindo de preço, é sempre interessante contar com alternativas como essa.

agosto 28, 2002

QUEIJOS: REBLOCHON
O reblochon é um queijo não muito difundido no Brasil, que não tem a fama de um camembert ou um brie, mas que em sua terra natal se presta bem ao preparo de deliciosos pratos da culinária regional. Surgiu no século XVI na região de Savoie, a leste da França, próxima da Suíça. Sua história é curiosa: Fazendeiros de algumas regiões pagavam aluguel aos proprietários das terras na proporção do leite que tiravam. Os proprietários passavam o verão nas fazendas e controlavam a quantidade de leite recolhida. Passado o verão, eles iam embora e, então, os fazendeiros usavam de um artifício para reduzir suas contribuições: simplesmente deixavam de ordenhar as vacas por completo e, assim, ao final da tarde, voltavam para recolher o leite restante, operação esta que era chamada “reblocher”.
Recoberto por uma fina camada cremosa de cor branca e ligeiramente frutada, recomendado com vinhos como o Gamay e os de Savoie.
Um dos pratos típicos da cozinha de Savoie é a Tartiflette au Reblochon, uma torta preparada com batatas, cebolas, queijo reblochon e vinho branco, gratinada e servida quente, de sabor pronunciado e que é muito bem acompanhada por um vinho tinto seco e encorpado. Tivemos a oportunidade de experimenta-la em Annecy, cidade ao norte de Savoie e muito próxima de Genebra, na Suíça, conhecida como a “Veneza francesa”, pois é toda recortada por canais, alguns largos e navegáveis. Uma bela paisagem, com os Alpes ao fundo, que certamente contribui para aumentar o prazer, propiciando ainda uma agradável sensação de tranqüilidade.

agosto 27, 2002

QUEIJOS: BRIE
Outro queijo francês que merece ter sua história relembrada.
Raramente um queijo terá sido tão saudado e celebrado pelos poderosos. Com efeito, sua prestigiosa epopéia segue muito de perto a História da França. A cidade de Meaux lhe deu o nome porque em seu centro se situava o principal mercado de queijos da região.
A proximidade com a capital e, portanto, com a Corte Real – Paris estava a 40 km – colaborou muito para a reputação deste queijo. A Revolução fez dele o queijo do povo: um revolucionário gastrônomo declarava “O queijo de Brie, amado pelo rico e pelo pobre, pregava a igualdade antes mesmo que a gente a suspeitasse possível”. Queijo dos Reis, ele se tornou o rei dos queijos...
Suas longínquas origens, entretanto, permanecem desconhecidas. Supõe-se que ele já era largamente apreciado na Idade Média. Carlos Magno descobriu o Brie de Meaux por volta de 774 (“acabei de descobrir uma iguaria das mais deliciosas”).
O Brie de Meaux estava na mesa dos grandes: Blanche de Navarre, Condessa de Champagne, o enviou ao rei Philippe Auguste; Charles d´Orléans o oferecia às damas da corte à guisa de brindes; a Rainha Margot e Henri IV se deleitavam com ele. A lenda diz que os pendores gastronômicos de Louis XVI acabaram lhe custando a vida: a tormenta revolucionária o obrigou a fugir. No caminho, durante a parada em Varennes, perto de Meaux, ele resolveu degustar o famoso Brie: foi reconhecido, preso e guilhotinado algum tempo depois...
Em 1815, trinta Embaixadores de países europeus se reuniram em Viena, para determinar as fronteiras da Europa após as guerras deflagradas por Napoleão, derrotado em Waterloo. Nos momentos de lazer, acabaram organizando um concurso para degustação de queijos. Competindo com concorrentes famosos, como Gouda, Stilton e Parmesan, o Brie saiu vencedor e foi declarado “!Príncipe dos queijos e o número um das sobremesas”.
De contextura untuosa, cor amarelo pálido, casca esbranquiçada e leve gosto de avelãs. Harmoniza com vinhos tintos como Cotes-du-Rhône, Saint0Emilion e Pinot Noir.
QUEIJOS: ROQUEFORT
Um outro bem conhecido queijo francês, bom acompanhante numa degustação de vinhos, é o roquefort. Vamos a um breve relato de sua história. Conta a lenda que um pequeno pastor teria esquecido um pedaço de queijo de leite de ovelhas e algumas fatias de pão de centeio em seu aprisco. Quando voltou, três meses mais tarde, percebeu que o queijo estava coberto de veias esverdeadas, que davam ao mesmo uma aparência de mármore. Em seguida, ele renovou a experiência, colaborando, assim, de alguma forma, para a criação do Penicillium roqueforti.
O processo de fabricação do roquefort, que segue métodos imutáveis, dura sete meses, passando por diversas etapas, em muitas das quais segredos permanecem bem guardados e são transmitidos de geração a geração. Particularmente, a fase de impregnação dos esporos de Penicillium é executada com técnicas que beiram a alquimia.
A natureza cumpre um papem importantíssimo, ímpar, na produção do queijo. No seio de um imenso maciço rochoso, sob o planalto de Combalou, existem cavernas naturais, originárias do período jurássico, utilizadas em nossos dias para o envelhecimento e a maturação do roquefort. Essas cavernas possuem fendas que agem como chaminés e transportam o ar carregado de Penicillium; este, durante o processo de colocação no ponto, confere um caráter único ao roquefort, um sabor incomparável, num verdadeiro milagre da natureza. (Nessas aberturas a temperatura se situa entre 9 e 12 graus Celsius, enquanto a umidade é muito elevada, próxima da saturação. Por conta disto, as cavernas respiram permanentemente).
Vale ainda dizer que a história do roquefort é bastante antiga, pois desde o século VIII existem citações sobre ele. O rei Carlos Magno (742/814), por exemplo, o havia elegido seu queijo favorito.
É um queijo forte, que acompanha melhor vinhos tintos como Merlot e Cabernet e brancos do tipo Pinot. Precisa ser conservado entre 4 e 6 graus Celsius.