outubro 04, 2006

VINHOS QUE VÊM DO SUL



Fazer o melhor vinho do Brasil era um sonho. E, movido por ele, Dilor de Freitas fundou a Villa Francioni, vinícola catarinense que se apresentou ao mercado em dezembro do ano passado. Em 2004, a vinícola foi concluída e a produção iniciada. Representado por três vinhos - os brancos Sauvignon Blanc e Chardonnay, e um rose - a vinícola catarinense chegou ao mercado demonstrando interesse em estar entre os grandes.
Para tanto, uma propriedade de 4.478 m2, com capacidade para produzir 300 mil garrafas por ano, foi erguida na cidade de São Joaquim, SC. Foi no solo pedregoso e profundo das serras catarinenses que encontraram o local ideal para o cultivo das mudas importadas da França e da Itália, a 1260 metros de altitude. O outro vinhedo, localizado em Bom Retiro, a 960 metros, desfruta de solo mais argiloso e temperaturas médias mais elevadas que o anterior.
Juntos, eles compõem os 50 hectares das duas propriedades da marca, que abrigam variedades como o Cabernet Sauvignon, Cabernet Franc, Merlot, Chardonnay, Pinot Noir, Sauvignon Blanc, Petit Verdot, Nebbiolo, Malbec, Syrah e Sangiovese. A inesperada localização, fora das tradicionais rotas para produções brasileiras, oferece clima frio e seco, com freqüentes ventos, e formam o que eles denominaram o "definitivo terroir brasileiro".
A preocupação com o produto final está presente desde a colheita, feita manualmente e a temperaturas mais amenas para evitar fermentações precitadas, até a etapa final. A arquitetura da vinícola se privilegiou do relevo e foi feita em desníveis, totalizando cinco andares. Isso permitiu que o processo de produção utilizasse a gravidade para dar fluxo ao escamento dos vinhos, evitando impactos mecânicos na bebida. A cave foi esculpida na pedra e abriga tonéis de carvalho francês, onde os vinhos descansam e tomam corpo. Por fim, todos são engarrafados automaticamente, sem contato manual.
Para tornar tudo isso possível, o conhecimento adquirido em inúmeras viagens e as melhores técnicas vistas nas vinícolas do exterior foram aplicados aqui. Hoje, a família se encarrega de manter os objetivos de Dilor na condução da vinícola. Outro desejo dele é que o local integrasse arte à bebida. E isso pode ser visto no cuidado com cada detalhe da decoração do local, que já foi projetado para um dia receber visitantes e apaixonados pela natureza, vinhos e arte como seu fundador. Assim, hoje, pode-se dizer que o sonho está mais perto da realidade.

A linha de vinhos da empresa:
Villa Francioni Chardonnay Lote I 2005 - Elaborado com uvas Chardonnay da região de Bom Retiro. Fermentado em barricas de carvalho por oito meses. Amarelo intenso com reflexos dourados, o vinho tem notas de cacau, cravo e chocolate e nuances de abacaxi, maçã e mel.
Villa Francioni Sauvignon Blanc 2005 - Um vinho que mantém as características de fruta e frescor, cor aromas tropicais de abacaxi e maracujá. Amarelo palha e com graduação alcoólica de 14%.
Villa Francioni Rosé 2005 - O vermelho claro e brilhante deste Rose acompanha aromas de frutas intensos e pouco mais de 13% de álcool. Foi elaborado com 48% de Cabernet Sauvignon, 46% de Merlot, 4% de Pinot Noir e 2% de Malbec, todas da fazenda de Bom Retiro. www.villafrancioni.com.br
Villa Francioni Joaquim Cabernet Sauvignon/Merlot 2004 - Vinho elaborado na propriedade de Bom Retiro, SC. Ousado, despojado e moderno, esse tinto expressa "o definitivo terroir brasileiro", em sua forma mais ousada. Cabernet Sauvignon (50%) e Merlot (50%), provenientes de vinhedos próprios, localizados em Bom Retiro do Sul, SC, foram colhidas manualmente, depois de extenso período de maturação. Após rigorosa seleção, seus melhores grãos são delicadamente prensados, resultando num vinho intenso e aromático. O estágio de 8 meses em barricas de carvalho francês novas, agregam complexidade, porém na medida exata para instigar seu apreciador e rapidamente premiá-lo revelando um vinho encantador e envolvente.

setembro 30, 2006

CARMENÈRE: GRANDE ESTRELA DA VITICULTURA CHILENA
A uva Carmenère tem uma história bonita e interessante. De origem francesa, mais especificamente da região de Bordeaux, no início do século XX foi disimada do mapa da Europa pela praga Filoxera que atacou os vinhedos europeus no final do século XIX.
As mudas de Carmenère sobreviveram no Chile pelo fato do país possuir a maior proteção natural do mundo: a Cordilheira dos Andes de um lado, o Oceano Pacífico do outro, o Deserto de Atacama ao norte e os glaciais ao sul.
Do início do século XX até a década de 70, essa uva foi confundida e plantada junto com a Merlot e os vinhos com ela elaborados vendidos como tal. Apesar de amadurecer bem mais tarde do que a Merlot.
A partir da identificação, pelo ampelógrafo francês Jean-Michel Boursiquot, o Chile ficou marcado por esta uva, hoje cultivada em poucos lugares. É uma uva difícil, exigente, que pede um solo muito seco, mas gera vinhos elegantes, com taninos macios.
Adaptou-se tão bem ao país que é no Chile onde ela demonstra todo seu potencial e sabor, tornando-se uva de extrema importância para a produção nacional.

setembro 07, 2006

QUINTO ANIVERSÁRIO
Esta mensagem pretende apenas registrar que a partir de amanhã este blog entrará no seu sexto ano de existência! Uma marca que nem sempre se encontra na Internet, onde a velocidade das transformações cresce a cada dia.
De alguma forma, aqui estamos ainda. E digo isto porque, de uns tempos para cá, oitras atividades na Net, relacionadas ao tema Vinho, vêm exigindo uma participação maior, fazendo com que o tempo se torne escasso para uma atenção a este blog como eu gostaria. Mas, com certeza, este espaço não está esquecido ou simplesmente preterido, até porque ele representa muito para mim e existe já uma relação afetiva com o mesmo. Assim, aos que vierem a perceber essa fase "morna" do blog, peço que me desculpem e, se puderem, aguadem uma maior presença. No entanto, da forma como construído, o blog possui muitos assuntos que não perderam em atualidade, por serem de caráter permanente e ainda úteis para os que garimparem o que procuram.

agosto 20, 2006

MORANGUEIRO
Morangueiro é a designação dada nalgumas regiões de Portugal e do Brasil ao vinho produzido a partir de castas de uva americana proveniente de produtores diretos ou inter-específicos.
Características
O morangueiro é um vinho em geral de cor violácea a rosada, com um intenso aroma frutado, que nalgumas circunstâncias lembra o cheiro do morango (daí o nome). Tem em geral baixa graduação alcoólica (7 a 10%), o que dificulta a sua conservação, transformando-se rapidamente em vinagre se exposto ao ar. Tal obriga a que o vinho seja consumido no ano de produção, sendo em geral os restos destilados para aguardente.
Apesar dos enólogos o considerarem de muito baixa qualidade, o morangueiro é refrescante e por ser intensamente aromático é utilizado em refrescos (com uma bebida gasosa) e em culinária, continuando a ter grande número de apreciadores.
Os produtores inter-específicos resultam do cruzamento entre uma vitis vinífera e uma vitis americana, solução encontrada para obter vinhas resistentes à filoxera. Os produtores diletos americanos são cultivares de vitis americanas.
História
O morangueiro apareceu em Portugal na seqüência da destruição dos vinhedos tradicionais causada pela filoxera. Ganhou particular relevo no norte do país (nomeadamente no Minho e no Douro Litoral), abrangendo zonas que pela sua umidade e altitude não permitem o cultivo da vinha européia. Foi nessas zonas que este vinho ganhou maior adesão popular, particularmente porque as vinhas americanas produziam mais que as européias. A competição feita aos bons vinhos foi intensa, redundando na proibição da comercialização do morangueiro.
Nos Açores, a introdução das vinhas americanas, em particular da casta Isabel, levou ao quase desaparecimento das vinhas européias, sendo ali produzido, em quantidade assinalável, um vinho do tipo morangueiro denominado vinho de cheiro, o qual é comercializado (em violação das normas européias) e tem um importante papel na culinária e nas festividades tradicionais (é o vinho usado nos bodos dos Impérios do Divino Espírito Santo.
No Brasil o morangueiro tem alguma presença no sul do país, não tendo qualquer importância comercial.
Comercialização
Em Portugal a comercialização do morangueiro é proibida desde há algumas décadas, embora fosse amplamente tolerada. A União Europeia, a instâncias dos Estados membros produtores de vinho, proíbe a comercialização no espaço comunitário desde 1995, tendo, contudo, anunciado recentemente a intenção de rever essa norma.
Em Trás-os-Montes, a eventual alteração legislativa poderá ter um reflexo positivo, pois permitirá reabilitar a produção deste vinho em alguns concelhos, nomeadamente em Montalegre (Covelo do Gerês), Boticas e Vila Pouca de Aguiar, zonas onde era tradicional. O mesmo acontece no Alto Minho e em certas localidades do Douro Litoral.
Efeitos sobre a saúde
Embora a proibição do vinho morangueiro se deva essencialmente a razões de projeção comercial aos vinhos de castas européias, tem sido consistentemente alegado que o morangueiro é nocivo para a saúde pela presença do flavonóide malvina, a antocianina corante que lhe dá o tom violáceo, e por ser rico em metanol. Este último composto resulta do falto de algumas castas varietais (Noah, Isabelle, Concord e Ives) darem uvas com elevada acidez, pouco açúcar e película rica em pectina. Nestas circunstâncias, a pectina pode ser desdobrada em metanol por efeito das enzimas naturais. O metanol é altamente tóxico, afetando severamente, mesmo em pequenas concentrações, os olhos.
Estudos mais recentes vieram lançar dúvidas sobre os efeitos nefastos da malvina e demonstrar que a presença de metanol é mais o resultado da má vinificação do que das características intrínsecas das uvas americanas. É com base nesses estudos que a Comissão Europeia admite que as castas interespecíficas não são necessariamente produtoras de vinho de má qualidade e que nem sempre põem em risco a saúde. Recomenda contudo, muita precaução quanto à sua elaboração, tendo em conta a percentagem de acidez do mosto e a sua relação debita com a presença de metanol. FONTE: WIKIPÉDIA

julho 02, 2006

O VINHO QUE NÃO VAI PRO VINAGRE
Pois teve aquele grande almoço de Páscoa e sobrou vinho. Depois, foi um jantar para amigos no meio da semana... e sobrou mais vinho. Que fazer? Guardar para usar num assado, num peixe, num molho especial; para fazer vinagre ou jogar fora?

Por que sobra vinho? A maioria das garrafas contém 750 ml de vinho, o que dá para seis taças. Esses 750 ml aconteceram por um acaso? É o que uma pessoa deve beber por dia? Ou foi um cálculo aleatório de um produtor de vinho de há 200 anos?

A resposta é simples. Os 750 ml são a medida que os pulmões dos sopradores de garrafa conseguiam soprar. Quando as primeiras garrafas foram produzidas, elas saiam com mais ou menos 750 ml porque esse era o volume de ar que um soprador podia expirar num sopro só.

Se bebemos menos ou mais que os 750 ml, o resultado é que vai sobrar vinho e que ficamos com o dilema de como preservar adequadamente essa sobra. A maioria de nós simplesmente coloca a rolha de volta na garrafa. Se for vinho branco, colocamos na geladeira. Se for tinto, deixamos na prateleira.

Porém, depois de poucos dias, ambos – brancos e tintos – vão perder algumas das características de frutado e rapidamente deteriorar-se. A exposição ao ar faz com que o vinho branco fique progressivamente sem graça, inexpressivo. Já o tinto fica cada vez mais rascante. Em uma semana, ambos começam a avinagrar e só vão servir para isso mesmo: nas saladas.

Mas podemos utilizar vários métodos para esticar a vida dessas sobras de vinho e ainda preservar muitas das suas qualidades. O método mais corriqueiro é guardá-lo na geladeira. Só que tem um problema: a rolha vai ressecar já que, ao contrário dos climatizadores de vinho, o ambiente de nossas geladeiras é muito seco. Ressecando, ela diminui o seu volume, encolhe, e transforma-se numa via de mão dupla: permite a entrada de ar e a saída do líquido. A perda é dupla também: de líquido e de vinho, que oxida com o contato com o oxigênio.

Se tivermos uma bombinha, a Vac-U-Vin (à venda em qualquer boa loja de vinhos), podemos retirar todo o ar da garrafa e arrolharmos novamente o vinho. Essa bombinha costuma vir com uma série de rolhas de borracha, apropriadas para essa operação, já que nem sempre conseguimos recolocar a rolha original de modo seguro. Poderíamos simplesmente colocar o vinho no congelador ou, se sobrou meia garrafa, transferir o vinho para uma meia garrafa (375 ml). Ou fazer como os romanos: despejar um pouco de azeite de oliva sobre a superfície do vinho e criar uma barreira contra o ar.

Bob Campbell, crítico e Master of Wine, fez uma experiência caseira com seis garrafas de vinho (era um Montana 97 Marlborough Sauvignon Blanc – um branco seco, frutado, relativamente barato) de modo a demonstrar os efeitos da oxidação.
Aqui estão os resultados dessa pesquisa, com as recomendações do crítico:

Se você planeja beber as sobras num prazo de dois dias:
Basta rearrolhar a garrafa com as sobras de vinho e colocá-la simplesmente na geladeira. A baixa temperatura vai estender a vida do vinho, da mesma maneira que faz com as vidas de manteigas e alfaces, reduzindo o processo de oxidação.

O vinho vai se deteriorar muito pouco após dois dias no frio. O vinho tinto é mais resistente à oxidação do que o branco pois contem tanino, um antioxidante natural. Colocar o tinto na geladeira vai estender grandemente a sua vida - mais tempo que o branco. Para bebê-lo, deixe-o um tempo na temperatura ambiente. Ou se tiver muita pressa em bebê-lo, coloque a garrafa rapidamente no microondas, antes retirando a cápsula ou qualquer parte de metal ou chumbo da garrafa.

Se pensa em beber as sobras dentro de uma semana:
Use o Vac-U-Vin. Um kit dessa bombinha com duas tampas/rolhas de borracha custam mais ou menos 30 ou 40 reais. A bombinha retira o ar da garrafa, reduzindo a taxa de oxidação do vinho, que poderá ficar fresco por um período mais longo. Após uma semana, o Sauvignon Blanc de Bob, perdeu apenas um pouco do seu frescor. Estava pra lá de bebível.

O Vac-U-Vin é mais eficiente se usado imediatamente após cada vez que a rolha é aberta. Uma vez fechada, a garrafa deve voltar para a geladeira. Isso vale igualmente para brancos e tintos. Ou seja, esse é o método utilizado pelos restaurantes. Alguns utilizam um processo semelhante, com um equipamento que emprega um gás inerte (que ocupa o espaço do ar dentro da garrafa, conservando assim o vinho que resta).

Se pensa em guardar as sobras por mais de uma semana:
O método mais simples é usar o Vac-U-Vin e colocar as garrafas no freezer. Quando voltarem à mesa, o vinho terá perdido só um pouco do seu aroma; de resto poderá ser bebido tranqüilamente. Terá a qualidade dos vinhos guardados numa geladeira por dois dias. Isso vale para tintos, brancos e até espumantes.
Preste atenção que o vinho congelado pode formar um pouco de cristais de tártaro - que são absolutamente inofensivos. Mas se a visão deles desagradar, decante o vinho.

Bob Campbell lembra que se fizermos um estoque de meias garrafas, bem lavadas, esterilizadas, além de rolhas não mais utilizadas (aquelas que pareçam as mais novas) e as completássemos com sobras de vinho (de um mesmo vinho, sem misturar um tipo com outro) quase até a boca e arrolhássemos bem, a bebida poderá durar por meses sem mostrar sinais de deterioração.

Encher até a boca implica em deixar pouquíssimo espaço para ar na garrafa, atenuando o efeito da oxidação. Aliás, ter sempre à mão um estoque de boas garrafas é pra lá de útil. Mesmo que haja sobras, elas serão mínimas. Você não perde muito e não tem tanto trabalho depois.(FONTE: Sonia Melier, em Bolsa de Mulher).

maio 06, 2006

DA SYRAH AO SHIRAZ
As duas grafias marcam a história desta uva tinta, originária da região do Rhône, mas que soube se adaptar, com maestria, aos terroirs do Novo e do Velho Mundo vinícola. Apesar da diferença fonética, é a mesma cepa, com seus taninos presentes e macios, mas com notas de degustação diversas. Na original francesa, ela é mais associada às especiarias; na versão consagrada pela Austrália, a cepa traz aromas de frutas mais maduras, com notas de chocolate.

Syrah ou Shiraz? Na França, ela é chamada de Syrah e dá origem aos grandes tintos da Côtes du Rhône. No Novo Mundo, ganhou uma grafia mais moderna:Shiraz, que é estampada nos rótulos de países tão diferentes como Austrália, África do Sul, Estados Unidos, Chile, Argentina e Brasil. Independentemente do nome, esta uva resulta num tinto escuro, bem estruturado, complexo e que agrada por seus taninos presentes, porém macios, e pelos aromas de frutas maduras, de especiarias e até de chocolate, couro e alcaçuz.

A diferença de nomenclatura não é apenas fonética, mas indicativa de um estilo de vinho e do respeito ao terroir. Mas se trata, sempre, da mesma cepa. Como Syrah, ela reina absoluta na região mais setentrional do Rhône, como Hermitage, Crozes-Hermitage, Côte-Rotie e Saint-Joseph. Seus vinhos Seus vinhos tendem a ser mais estruturados, e pedem um pouco mais de guarda: são tintos que demoram mais a abrir na taça e a revelar todas as suas (muitas) qualidades. E são poderosos.

O produtor Guigal é um dos campeões de nota 100 do crítico norte-americano Robert Parker e, claro, um fã da Syrah. “ela é a cepa ideal. Em sua infância, ela resulta em vinhos frutados, muito expressivos e elegantes. A Syrah pode evoluir lindamente, com a estrutura e textura de seus taninos”, afirma Philippe Gutgal, diretor-geral e enólogo do Domaine E. Gurgal.

No sul do Rhône, a Syrah divide os méritos com outras tintas, como Grenache, Mourvèdre, Marsanne e Cinsault, que fazem o sucesso do blend de mais de uma dezena de uvas do Châteauneuf-du-Pape

Já a Shiraz resulta em vinhos mais frutados, exuberantes, muito agradáveis de beber e que ficam prontos mais cedo – mas que mantém, como na sua origem francesa, a classe de envelhecer com maestria e encanto. Nestes terroirs, seus vinhos logo revelam a riqueza de aromas de frutas vermelhas, como framboesa (principalmente), toques florais, de chocolate e de especiarias – notas de pimenta preta, canela e até cravo os associam, freqüentemente, a tintos preferidos pelo público feminino. E mantém a cor escura, que lhe é característica – esta uva é rica em antocianos e, no passado, como Syrah, chegou a ser acrescentada nos vinhos de Bordeaux e Borgonha para torná-los mais encorpados e densos em cor. Não custa lembrar que, no século XIX, o Hermitage era o vinho mais caro e valorizado da França.

A dupla grafia faz parte da história desta uva desde meados do século XIX. Em 1832, como Syrah, ela embarcou da França rumo à Austrália pelas mãos do escocês James Busby, que mais tarde ficou conhecido como o pai da viticultura do país do canguru. O novo nome foi dado pelos australianos para a cepa que tão bem se adaptava ao seu terroir. Atualmente, ela é a uva oficial e estrela dos grandes tintos do país.

Sua expansão para novas fronteiras ganhou força a partir da década de 1970, seja nos países do novo mundo, como África do sul, e até na Itália e na própria França. Em Languedoc-Roussillon, no sul da França, por exemplo, ela chega a ser chamada de Shiraz, talvez para diferenciá-la dos tintos do Rhône. É uma cepa que também se adaptou aos climas mais quentes e até no brasileiro Vale do São Francisco. “Com as características únicas do paralelo 8, seus vinhos ganham aromas de frutas tropicais, como a goiaba, por exemplo”, afirma o enólogo Carlos Moura, presidente da ViniBrasil.

O gosto pelas viagens está até nas histórias de sua origem. Por muito tempo, imaginava-se que a Syrah tinha migrado da Pérsia (atualmente o Irã) para o Rhône pelas mãos de um cavaleiro medieval. Teria sido em pleno século 13, época das cruzadas. Outra hipótese apostava numa origem italiana da cepa; e seu nome seria associado à cidade de Siracusa. Estudos mais recentes, no entanto, comprovaram que a cepa provavelmente é autóctone do próprio Rhône, descendente de uma cepa da família vitis allobrogica, e que dá origem aos tintos da região desde os tempos do Império Romano. (por Suzana Barelli, publicado em Expand News, maio de 2006).

maio 01, 2006

O PARADOXO BRASILEIRO
O Cadastro Vinícola do Rio Grande do Sul, que mede as áreas de vinhedos comerciais do Estado, avaliou em 2005 35.263 hectares a superfície cultivada, da qual 6.955 ha (19,7%) de variedades viníferas1. Se levarmos em conta que o cultivo gaúcho corresponde a 90% do nacional, ficamos com um vinhedo de 39.181 hectares, bem diferente da cifra de 60.000 hectares informada pela OIV em 2001.

Já o consumo anual médio per capita de 2,71 l é o mesmo em todas as estatísticas, e em se mantendo a relação viníferas — não viníferas, o consumo médio anual de viníferas é de apenas meio litro per capita.

Concluindo, o brasileiro bebe pouco e mal. Se levarmos em conta que relativamente à cerveja esse consumo é de 50 litros (AmBev) e o de destilados estimado em 13 litros (não existem dados oficiais), nosso consumo de vinho é pífio.

Se levarmos em conta o grande número de pessoas, de empresas, de profissionais, de enófilos, publicitários, confrarias, associações, grupos de degustações, aspones, de empreendimentos e capitais direta e indiretamente ligados ao vinho, principalmente ao vinho fino, importado ou nacional, como explicar esse pequeno consumo?

Já explicar a presença majoritária das variedades americanas e híbridas entre nós, é mais fácil. Embora nossos primeiros colonizadores tenham trazido uvas viníferas no século XVI, nossa viticultura só se desenvolveu realmente na segunda metade do século XIX, a partir de 1870, com a chegada dos imigrantes italianos ao Rio Grande do Sul (principalmente do Vêneto e do Trentino — Alto Adige), que também trouxeram suas variedades viníferas. Ocorreu, entretanto, que algumas décadas antes, a partir de 1840, haviam chegado ao país algumas variedades americanas, como Isabel, Catawba, Concord, Martha, Delaware, entre outras, que se adaptaram muito bem ao novo habitat , eram resistentes às pragas (o que não ocorria com as viníferas) e ganharam a preferência dos vinicultores do Estado, preferência sensorial, gustativa e cultural, que perdura até nossos dias e que não cabe questionar.
Gosto é gosto e não se discute. Quando muito pode-se tentar educar. Como diz o título de uma recente publicação de sucesso, “Amar é Educar”…

Nosso paradoxo parece ser esse — uma geração se dedicando à melhoria do vinho e gerações de produtores e consumidores habituais, emocionalmente ligados ao vinho de garrafão.

Michel Rolland
Nesse contexto, aparece inesperadamente a figura emblemática de Michel Rolland, consagrado enólogo francês, consultor internacional de um grupo denominado “flying winemakers”, vinhateiros voadores. Rolland dá atualmente assessoria a mais de 100 vinícolas de 12 países.

Para muitos Michel Rolland seria o Ronaldinho do vinho e como tal foi contratado no início de 2004 por uma importante vinícola gaúcha para elaborarem conjuntamente três novos vinhos (um dos quais de uma variedade de Portugal), tarefa que o enólogo-voador desempenhou brilhantemente e da qual resultaram vinhos notáveis.

Foi quando ocorreu um fato inesperado, este de conseqüências maiores. Em entrevista à jornalista Bete Duarte, de Zero Hora de Porto Alegre, em 5 de junho (2004), Michel Rolland deu suas opiniões sobre o vinho brasileiro, opiniões coerentes de um conhecedor, que provocaram reações indignadas por parte principalmente dos diretores das associações corporativas do vinho nacional. O enólogo passou de Ronaldinho a um perna-de-pau da Segunda Divisão, lembrando-se aqui que o mesmo clube, que lançou Ronaldinho (o Grêmio de Porto Alegre), pouco tempo depois foi parar na Segunda Divisão…
Entre comentários pouco elogiosos, Rolland afirmou que o Brasil precisaria acabar com o vinho comum (de não viníferas), que prejudica a imagem do pais, chamando-o de “antivinho”.

As respostas às declarações não se fizeram esperar, pelas “barbaridades ditas por Rolland”, pela “falta de respeito para com os colegas brasileiros”, “pela postura arrogante e radical, de que sendo um consultor para vinhos finos dá opiniões sobre vinhos de mesa”, “que esse francês foi muito infeliz em suas colocações”, “que esse francês deve respeitar os usos e costumes do Brasil”, além do que “o consumidor é rei, ele dita as normas do mercado”2 e várias outras manifestações de revolta.

Um ano depois, em julho de 2005 volta Rolland ao mesmo Bon Vivant (ano 7, nº76, p.12-13) acompanhado pelo diretor da vinícola à qual dá consultoria, entrevistado por Andréia Debon. O “tom” agora é outro, cauteloso, político, sorridente e de chimarrão na mão… Afirma que, “todos têm que trabalhar para convencer ao mercado que seu vinho é melhor”, que “o Brasil tem potencial”, mesmo sabendo que “no Brasil… não há história suficiente… nas zonas vinícolas”. Evidentemente fez “média”, sem entrar agora em detalhes polêmicos.
Temos assim no país duas realidades vinícolas, opostas e inconciliáveis, a dos vinhos de viníferas e a majoritária, dos vinhos de uvas americanas e híbridas, as preferidas do consumidor patrício. Queremos crer que essa circunstância, como pensa Rolland, é incompatível com um vitivinicultura que pretende ser considerada e respeitada no mercado internacional.

Como dizia meu professor Jayme Arcoverde de Albuquerque Cavalcanti, da FMUSP, “a verdade é feia e tem cara de herege”.
Parece ser esse o nosso paradoxo, no qual cada um beberá o que quiser, ou talvez o que mereça.

Preferências – Nacha Guevara e discépolo
A propósito de preferências, gustativas ou não, ocorre-nos um lúcido comentário da cantora argentina Nacha Guevara, encaixado na gravação do antológico e profético tango Cambalache (1934), de Enrique Santos Discépolo (1901-1951), gravado ao vivo em Madri (La Vida em Tiempo de Tango, CD-8134, Espana 2000).
A certa altura Discépolo com seu humor satírico, pessimista e amargo, referindo-se a desagregação social de seu tempo diz que tanto faz ser honesto ou não, ignorante ou sábio, ao escrever:

“Tudo es igual, nada es mejor
Lo mismo un burro que um gran professor
No hay aplazados (reprovados) ni escalafón (relação de aprovados)”
Nesse ponto entra o comentário da intérprete:

“…parece-me que aí Discépolo se enganou, pois que na realidade hoje um burro é muito mais que um grande professor, além do que há muito mais burros que grandes professores. Portanto os burros são maioria e as maiorias mandam. Não é essa por acaso a democracia? Como diz o famoso provérbio indú: “Come merda, que centenas de milhares de milhões de moscas não podem estar equivocadas”.

O comentário é sem dúvida grosseiro, mas em matéria de preferências, cabe um raciocínio linear e lógico — não é por ser uma opção da maioria que temos que aceita-las.
Como bem diz Nacha, estamos em uma democracia em que a maioria manda. Ainda assim podemos comer e beber o que quisermos. Não somos moscas... (Por: Sérgio de Paula Santos - Jornal Bon Vivant - fevereiro 2006).

abril 04, 2006

A ESCOLHA DAS TAÇAS
Ao fazermos uma degustação, é importante dar atenção a alguns detalhes para que ela seja a mais aprazível possível. Nesta coluna já falamos sobre técnicas de degustação, temperatura de serviço, mas existem outros cuidados que igualmente fazem toda a diferença na hora de servir o vinho, como por exemplo, a escolha das taças.
Seria exagero tanto zelo na escolha das taças? Não. Além de demonstrar carinho e atenção para com os convidados, é por meio das taças que as características do vinho se manifestam e podem ser mais facilmente percebidas. Por isso elas devem ser tão cuidadosamente selecionadas.
As taças podem ser de vidro ou de cristal (preferencialmente cristal). Devem ter espessura fina, sem dourados, prateados, colorações ou lapidações. Devem ser transparentes e incolores, para permitir a visualização da tonalidade real do vinho. O corpo da taça deve ser separado da base por uma haste preferencialmente longa. A parte inferior do bojo deve ser ampla e ir afinando em direção às bordas, para facilitar a percepção dos vapores que fluem para a parte superior.
Os cálices devem ser servidos com ¼, ou até 1/3, da sua capacidade, para que os aromas possam se desprender e facilitar a percepção, como também permitir a inclinação em várias posições para a avaliação visual do vinho. Encher a taça, além de ser deselegante, é uma atitude que fere o ritual da degustação, já que você não conseguirá apreciar as características de cor e de aromas.
Cada tipo de vinho exige uma taça adequada. A forma do cálice tem por finalidade levar a bebida à sua correspondente zona gustativa da língua e, assim, potencializar a apreciação dos seus predicados mais marcantes. Para vinhos brancos são recomendadas taças menores e estreitas na parte superior, formatos que visam acentuar a delicadeza e frescor dos aromas. Para os tintos, copos mais abertos tornam maior a superfície de contato entre o ar e o vinho, e possibilitam melhor percepção das características da bebida. De modo geral, os profissionais e apreciadores do vinho utilizam as taças ISO (Internacional Organization Standardization), produzidas especialmente para a degustação.
No caso dos espumantes são utilizadas taças de bojos longos e estreitos, para que melhor seja apreciado o desprendimento das bolhas (perlage).
O cuidado com a higienização da taça é muito importante. É necessário que ela esteja bem limpa e livre de qualquer tipo de odor. Deve ser lavada com um detergente neutro e enxugada com tecido que não solte fiapos. Você também pode lavar com água fervendo e deixar secar naturalmente. Mas evite virar as taças para baixo sobre um pano úmido. Pode provocar odores indesejáveis.
Como você pôde perceber, as taças desempenham papel fundamental na apreciação de vinhos. Além de serem imprescindíveis do ponto de vista técnico, levam beleza e requinte ao ritual da degustação. (FONTE: Vinhos&vinhos).

dezembro 04, 2005

O ESPUMANTE BRASILEIRO
As condições climáticas adversas da Serra Gaúcha costumam comprometer a maturação ideal das uvas para produzir grandes vinhos brancos e tintos, mas acabam se tornando muito adequadas quando o destino das uvas é o espumante. Os meses determinantes do ciclo vegetativo das videiras, quando se foca a elaboração de espumantes, são dezembro, janeiro e fevereiro. Durante este período, o número de dias de chuvas bastante elevado reduz a insolação. Ao mesmo tempo, as noites ficam frescas com temperaturas noturnas bem abaixo dos 20°C.
Estes dois fatos fazem que as uvas mantenham um bom teor de acidez com um teor moderado de açúcar. Este perfil de maturação caracteriza perfeitamente as uvas destinadas à espumantização. Por outro lado, esta maturação, por acontecer lentamente, favorece a formação de aromas extremamente finos e delicados.
Teor moderado em açúcar com boa acidez e aromas finos são os dois fatores essenciais de qualidade dos espumantes, inclusive do champagne.
Na Serra Gaúcha existem várias castas originárias de diferentes e consagradas regiões produtoras do mundo que se enquadram perfeitamente neste perfil como Chardonnay, Pinot Blanc, Semillon, Ugni Blanc, Riesling Itálico e Pinot Noir.
A Chardonnay é uma variedade universal presente em quase todos os espumantes de qualidade: champagne e crémant de Bourgogne, na França; espumantes italianos, californianos e australianos, por exemplo.
A Pinot Blanc encontra-se no crémant d’Alsace; as Semillon e Ugni Blanc no crémant de Bordeaux.
A Riesling Itálico já é menos difundida, salvo no norte da Itália, mas merece um destaque especial por ser a variedade emblemática da Serra Gaúcha. Confere aos espumantes ótimas sensações de refrescância, frutado e leveza.
A Pinot Noir, quando vinificada em branco, origina espumantes mais estruturados, amplos e vinosos. Aliás, esta variedade ilustra bem a problemática da Serra Gaúcha. No decorrer da maturação, ela vai se tornando cada vez mais sensível à podridão, o que dificulta consideravelmente o alcance da plena maturação necessária à elaboração de um vinho tinto. Porém, colhidas justamente antes dos princípios de ataque de podridão, as uvas apresentam o ótimo de maturação para um futuro espumante, sem as alterações de qualidade originadas pela podridão. Não podemos deixar de falar das uvas moscatéis, que entram na elaboração de espumantes similares aos da tradicional região de Asti, na Itália.
O bom domínio das vinícolas da Serra Gaúcha, verificado nas fases de vinificação e de segunda fermentação, seja na própria garrafa (método tradicional), ou em tanques (método Charmat), com posterior engarrafamento isobarométrico, proporciona aos consumidores brasileiros espumantes de grande qualidade.
Além do reconhecimento nacional, numerosos destaques e premiações já foram conquistados em diversos concursos e avaliações internacionais.
Hoje, sem sombra de dúvida, o público brasileiro pode apostar nos espumantes da Serra Gaúcha, não somente para as festas de fim de ano, mas também para desfrutá-los o ano todo.
Saúde!
(FONTE: Philippe Mével, Diretor de Produção da Chandon)

novembro 08, 2005

O CONSUMIDOR TÍPICO
Pesquisa patrocinada pela Constellation Wines, braço americano da constellation Brands, maior produtor de vinhos do mundo, realizada nos EUA com mais de 3.500 consumidores de vinhos finos, mostrou que estes podem ser classificados em seis grupos distintos. Veja abaixo quais são esses grupos e em qual deles você imagina que se enquadra:
Entusiastas (12%) - são consumidores apaixonados por toda a experiência com o vinho: pesquisam o que compram e dividem suas descobertas com amigos e família. Não escondem que consultam a Wine Spectator.
Autocentrados (20%) - preocupam-se, sobretudo, com a auto-imagem. Não sabem muito sobre vinhos, mas buscam aqueles mais caros, que estejam na moda. Não querem ficar mal na foto.
Sabidos (15%) - buscam barganhas, bons vinhos pelo menor preço possível: bom vinho não precisa custar muito.
Tradicionalistas (16%) - querem se assegurar de que seus vinhos vêm sendo produzidos por um bom tempo por vinícolas de excelente reputação. Compram marcas a longo tempo de mercado, já testadas.
Satisfeitos (14%) - buscam vinhos razoáveis que possam servir sem queixas de amigos ou da família. Não se importam com origem dos vinhos e compram sempre as mesmas marcas: aquelas de aceitação geral.
Assoberbados (23%) - acham que comprar vinho é uma atividade muito complexa, confusa, estressante, que os deixa sempre preocupados com a possibilidade de cometer enganos. Prateleiras com informações corretas e a ajuda de balconistas são importantíssimas para eles.
Os pesquisados tinham de ter comprado pelo menos uma garrafa de vinho a partir de cinco dólares, no período de um mês e responderam a um extenso questionário. FONTE: "O consumidor típico", por Sonia Melier, Tribuna da Imprensa.