fevereiro 16, 2003

O QUE VAI PELA SERRA GAÚCHA
Assim como é instrutivo ter noções sobre o que acontece no universo do vinho em países mais adiantados, consideramos igualmente importante destacar o que vem ocorrendo no Vale dos Vinhedos, maior região produtora de nosso país. Mesmo sabendo que a comparação com outras partes do mundo resulta desigual. Mas valorizando o que é nosso.
Cerca de 60 mil turistas passam anualmente pelo Vale, onde ficam conhecendo a linha de produção e o processo de maturação dos vinhos e espumantes em caves subterrâneas. E, em cada visita, participam de um ritual de degustação. Algumas cantinas oferecem, sob encomenda, jantares entre barris de carvalho. Preocupados em oferecer novidades, os proprietários estão sempre inovando. A Miolo, por exemplo, promete inaugurar em 2004 o primeiro Spa do Vinho do Brasil, onde oferecerá banhos terapêuticos e uma linha de produtos à base de uvas, como o esfoliante feito com sementes.
Aqui se faz um dos melhores espumantes do mundoO mérito do Vale dos Vinhedos é indiscutível, principalmente no que diz respeito aos espumantes. Os resultados dos concursos refletem o cuidado dos produtores aliado às características locais. “As condições climáticas da Serra Gaúcha são parecidas com as de Champagne. As uvas são ácidas e não amadurecem direito. Essas características são péssimas para o vinho e excelentes para o espumante”, compara o crítico Saul Galvão. “O Brasil não deveria fazer outro tipo de vinho. O espumante do Sul é para se desfrutar sem cantar o hino, sem ser nacionalista”, diz. As poucas vinícolas que resistiam a produzir espumantes tiveram de retificar. “A Miolo entrou no setor há três anos e, já em abril (2002), foi à Itália buscar a grande medalha de ouro do concurso Vinitaly”, conta Antonio Miolo, um dos diretores da casa. O vencedor foi o Terranova Moscatel, um tipo de Asti feito com uvas do Vale do Rio São Francisco que se sagrou campeão na casa dos adversários. Sua façanha só é comparável à do Marcus James Chardonnay Brut da Aurora, medalha de ouro no Vinalies Internationales 2001, realizado no país do champanhe.
Tudo isso fez crescer a credibilidade dos espumantes nacionais e contribuiu para sua popularização. “O espumante sempre foi associado ao “reveillon”. Agora começa a ser degustado no dia-a-dia”, festeja o presidente da Sociedade Brasileira dos Amantes do Vinho (Sbav), Aguinaldo Záckia Albert.
Com tanta boa notícia, novas denominações geográficas devem surgir na Serra Gaúcha, seguindo o caminho aberto pelo Vale dos Vinhedos. “Muitos consumidores podem entender errado e achar que só no Vale são produzidos vinhos de qualidade. Mas há muitas regiões com potencial para receber um certificado”, defende Ayrton Luiz Giovannini, da vinícola Don Giovanni. Seu Espumante Brut está entre os melhores do mundo e compete de igual para igual com qualquer vinho do Vale. Localizada em Pinto Bandeira, a 14 quilômetros dali, sua vinícola namora o selo de indicação geográfica “Vinhos de Montanha”, adotado pelas vinícolas do município, enquanto outros produtores do Estado começam a batalhar selos como Vale Aurora, Vale das Antas e Vinhos da Campanha. A Salton, por exemplo, inaugura em 2003 a maior indústria de vinhos do País no Vale das Antas e promete batalhar por um DOC. Até a microrregião de Mato Perso, onde fica a vinícola Giacomin, pode disputar uma denominação. Mas, no mercado de espumantes, ser desenvolvido no Brasil já é um belo cartão de visita.